postado por Matheus em 24 fevereiro 2014

Review | 12 Anos de Escravidão

Direção: Steve McQueen (II)
Duração: 2h 13min
Lançamento: 2014
Gênero: Drama, Romance


Sinopse

Esta história, baseada em fatos reais, apresenta Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um escravo liberto que é sequestrado em 1841 e forçado por um proprietário de escravos (Michael Fassbender) a trabalhar em uma plantação na região de Louisiana, nos Estados Unidos. Ele é resgatado apenas doze anos mais tarde, por um advogado (Brad Pitt).




Crítica

Em sua grande maioria, o cinema norte americano é extremamente patriota. Super-heróis americanos salvam o mundo de ameaças, membros do exército americano fazem de tudo para glorificar o país, grandes personalidades americanas são idolatradas... O cinema acha diversas maneiras para que esse patriotismo seja transpassado na tela; o bom é que, muitas vezes, isso rende bons filmes. Tomando como base o Oscar do ano passado, havia três filmes altamente patriotas (mas bons), sendo eles Lincoln, A Hora Mais Escura e Argo. Com isso, era curioso ver Indomável Sonhadora, que mostra a pobreza dos EUA, estar indicado a diversas categorias (apenas sua coragem em mostrar isso o fazia merecedor de algum prêmio). Nessa edição do Oscar mais uma vez aparece um filme corajoso, mostrando algo de que os EUA não se orgulham, a escravidão. Você pode até dizer que Django Livre já mostrou isso nas telonas, mas a intenção dele era mais divertir do que mostrar a crueldade dessa época. Então é por isso que 12 Anos de Escravidão se mostra ainda mais corajoso, mais cruel, mais verdadeiro e até mais magnífico.


Num ambiente onde em sua maioria negros são escravos Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) chama atenção por ser um dos poucos negros libertos da época. Seu trabalho como violinista sempre foi muito apreciado, e sua vida junto com sua esposa e seus dois filhos era normal. Um dia ele recebeu a proposta de trabalhar como músico em um circo durante duas semanas. A proposta era boa, e como não passaria tanto tempo longe da família ele decidiu aceitar. Em uma noite de comemoração pelo novo emprego, doparam-no e acorrentaram-no num lugar completamente fechado, e então ele logo se deu conta de que havia se tornado um escravo. Não demorou a ser levado para o mercado escravagista (e mudar seu nome para Platt), onde então foi comprado por William Ford (Benedict Cumberbatch).  O trabalho de Solomon lá não é de todo ruim, pois Ford é atencioso e nem um pouco cruel; o problema está em um de seus capatazes, Tibeats (Paul Dano), um homem racista e cruel, que maltrata Solomon sem nenhum motivo. Vendo que a relação entre os dois não poderia mudar, Ford, desejando o bem para Solomon, decide pô-lo novamente a venda. É então que ele é comprado por Edwin Epps (Michael Fassbender), algo que faz com que sua vida mude para pior.
Edwin Epps é sádico, cruel quando necessário, e gosta de ver seus escravos trabalhando constantemente em sua plantação de algodão. Sua mulher, Mary Epps (Sarah Paulson), é igualmente fria, não demonstrando sentimentos nenhum pelos escravos de sua fazenda. Logo Solomon se vê forçado ao trabalho exaustivo e cruel, sem que sua vida lhe mostre grandes esperanças.
Entre tantos escravos e escravas Patsey (Lupita Nyong’o) sempre se destaca por ser quem mais colhe algodão na fazenda. Por isso, Edwin sempre mostra um tratamento “especial” por ela, guardando dentro de si um sentimento amoroso completamente impossível. Boatos sobre a relação entre os dois correm por toda a fazenda, algo que faz com que Mary se mostre ainda mais fria com relação à Patsey. Aos poucos, é formado um vínculo mais forte entre Solomon e Patsey, e com isso vem os ciúmes obsessivos de Edwin para Patsey, que resultam em horrores terríveis. Entre esse ambiente hostil, a vida não mostra esperanças à Solomon, à Patsey ou a qualquer outro escravo, fazendo com que suas vidas fiquem fadadas ao trabalho e ao horror ao que estão expostos.

Desde o princípio 12 Anos de Escravidão não dá sinais de ser um filme feito para divertir ou para causar extremas emoções melodramáticas. Ele segue por um caminho mais histórico, mas verdadeiro, sem demonstrar muito melodrama. Essa grande jogada do filme dá certo, já que toda a realidade que envolve a escravidão não precisa de dramas adicionais para tocar os expectadores, ela fala por si só!
E é aí que se esconde a maior magnificência do filme. Desenvolvendo-se pelo lado mais histórico 12 Anos de Escravidão vaga entre a realidade da época, pegando para si os detalhes mais importantes e mais fortes de todo o horror da escravidão. Todos esses detalhes aparecem na tela de forma realista e cruel, sem o intuito de polemizar, mas sim para chocar a todos com as crueldades de que o homem é capaz. E, mesmo não apostando no lado mais melodramático de tudo isso, o filme se mostra uma fonte de fortes emoções verdadeiras. O choque sentido em ver determinadas cenas é forte, e a emoção em ver o drama de todos aqueles seres humanos também. E, se lágrimas lhes vierem aos olhos (algo facílimo de acontecer), elas virão sem nenhum esforço: tudo aquilo expresso na tela é mais que necessário para suscitar nossas mais profundas emoções.
Com tudo isso, Stephen McQueen pode ser considerado um mestre na arte de fazer cinema. Sua direção nesse filme é precisa, sem exageros e sem deixar nada de fora, seguindo o mesmo caminho certeiro do começo ao fim. Ele faz com que o filme flua magnificamente entre a neutralidade emocional e o forte drama expresso pela realidade em si. Isso ajuda (e muito) o filme a não se tornar melodramático, mas ainda assim emocionando em diversas cenas. Sua direção sobre o elenco também é soberba, arrancando o máximo possível dos atores, fazendo com que o filme fique ainda mais memorável.
Chiwetel Ejiofor, que nunca teve a chance de brilhar em nenhum filme (todos os seus papeis anteriores eram coadjuvantes), mostra na tela uma atuação incrível. Seus medos, receios, esperanças e dores são transpassados na tela sem que sejam necessárias frases de impacto, suas expressões faciais falam por si só (destaque para a inesquecível cena em que canta a morte de um escravo ao lado de vários outros escravos). Mesmo com essa atuação fantástica Chiwetel perde a cena quando está em cena junto com alguns dos coadjuvantes. Paul Dano – que sempre atuou em filmes que mostram seu lado mais afável – dá um vigor impressionante ao cruel Tibeats. Sarah Paulson consegue fazer com que nós direcionemos todas as nossas raivas à sua terrível Mary Epps. Ainda assim, quem toma conta nas cenas em que aparecem são Michael Fassbender e Lupita Nyong’o. O primeiro aparece em cena com uma força emocional que dificilmente aparece em vilões. Sádico mas ainda assim com emoções, sua atuação é forte e chocante, conseguindo levar o espectador por uma ode de ódio e horror inimaginável. Já a segunda se entrega de corpo e alma a uma das personagens mais complexas do filme. Patsey, que vive uma vida de desventuras, é vivida com uma força sobre-humana pela carismática Lupita. Todo o seu sofrimento, toda a sua dor e toda a sua angústia nos atinge certeiramente através de expressões faciais magníficas e de falas ditas com uma emoção sem igual. Na tão falada cena do sabão os três atores (Chiwetel, Michael e Lupita) se jogam de cabeça em seus personagens, tornando-a uma das cenas mais memoráveis e cruéis já vistas nos cinemas nos últimos anos.

No final das contas, 12 Anos de Escravidão se mostra uma verdadeira obra-prima. Minuciosamente desenvolvido, cada aspecto desse grande filme conspira para que ele seja considerado como perfeito por muitas pessoas. A crueldade com que diversas cenas são mostradas no decorrer do longa nos faz perguntar até que ponto pode ir a crueldade do ser humano, isso de forma fantástica. Não há os finais felizes de contos-de-fadas para todos, algo que aumenta ainda mais a percepção da realidade cruel em que se passou essa época obscura da história norte-americana.


Avaliação:






Sobre o Autor:
Matheus
Matheus é Colaborador do blog, cinéfilo de carteirinha, leitor compulsivo e aficionado por música. Quando não está lendo, pode-se vê-lo re-assistindo Kill Bill ou então ouvindo música com os seus fones inseparáveis.


6 comentários:

  1. A estória é incrível; triste e com um teor muito forte e impactante. O personagem passou por muita coisa ruim e é muito triste o que lhe aconteceu. Ainda pretendo ver este filme.

    ResponderExcluir
  2. a história é emocionante e o drama é bem forte as vezes é bom ver filmes assim pelo menos eu adoro o gênero e tmb filmes baseados em fatos reais.

    ResponderExcluir
  3. tive oportunidade de assitir esse filme recentemente, todo filme que fala sobre escravidão e não poupa cenas fortes é um murro no estômago. a injustiça pulsa da tela, e 12 anos de escravidão mostra bem isso. o filme ainda tá bem vívido na minha mente, eu nem tenho muito o que dizer. só concordo com vc nessa crítica/resenha perfeita =)

    ResponderExcluir
  4. Apesar do filme parecer muito bacana, eu vi que tem o livro e pretendo lê-lo antes de assistir ao filme.
    Beijocas ^^

    ResponderExcluir
  5. Assisti esse filme e, confesso que me senti muito mal. Ele é muito forte mesmo. As cenas de violência contra os escravos são de uma perfeição incrível. E, justamente por isso, vi que esse tipo de filme não me faz bem. Só em pensar que essas cenas não chegam nem à 1% do que eles realmente sofreram, me dá calafrios.

    @_Dom_Dom

    ResponderExcluir
  6. Eu vi vários blogueiros comentarem deste lançamento, mas ate aí não me interessei, e então me deparo com esta opinião super legal. Adorei sua opinião sobre o livro, o que me fez mudar meu ponto de vista sobre o mesmo!

    Abraços,

    livroseestrelas.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir