postado por Matheus em 01 outubro 2014

Resenha | O Homem Mais Procurado

Autor: John le Carré
Editora: Record
Páginas: 364
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Sinopse

Após o 11 de Setembro, Hamburgo tornou-se uma cidade suspeita, pois acolhera alguns dos autores do atentado. Na calada da noite, um jovem checheno faminto entra clandestinamente na cidade. Em uma bolsa pendurada ao pescoço esconde uma quantia incontável de dinheiro. É um muçulmano devoto e afirma chamar-se Issa. Determinado a lidar com o imigrante apenas para manter em segredo as conexões imorais do pai, o banqueiro Tommy Brue descobre na advogada Annabel, uma alemã que decide salvar Issa da deportação, uma aliada, e ambos se unem para defender Issa, acusado de colaborar com o terrorismo.
·Considerado pela mídia internacional o melhor romance de John le Carré.
·Um dos autores de maior destaque internacional. Diversos títulos foram adaptados para as telas, entre eles O jardineiro fiel e O espião que sabia demais.




Obras de espionagem ou thrillers têm que tomar muito cuidado quando apostam em histórias que tratam de temas mais complexos, como religião, espaços geográficos ou política. Qualquer excesso de detalhes, por mais bem explicado que seja, pode tornar o livro confuso para qualquer leitor. O cultuado escritor John le Carré sempre se saiu bem em seus thrillers, visto suas diversas obras presentes na lista de mais vendidos do The New York Times. Não posso dizer como ele se sai com sua escrita em seus outros livros, visto que esse é o primeiro que leio de sua autoria. Mas O Homem Mais Procurado se enrosca quanto ao excesso de detalhes referentes aos temas descritos no começo dessa resenha. O que se mostra uma pena, já que sua história central tinha um grande potencial.
[...] e o passado vai embora. Só que ele nunca vai de verdade, não é mesmo?
Pág. 35


Ao princípio, somos apresentados à Melik e Leyla, mãe e filho muçulmanos que levam uma boa vida em Hamburgo, Alemanha, buscando seus direitos como cidadão. Nas ruas da cidade encontram Issa Karpov, um homem de pouco mais de 20 anos com feições abatidas. Issa pede-lhes ajuda, mas Malik não acha que ajuda-lo seja a escolha certa; buscando se tornarem cidadãos legais da Alemanha, qualquer problema implicaria na perca total dos direitos de Melik e Leyla. Mas o senso humano deles fala mais alto, e então prestam a devida ajuda a Issa. Enquanto tratam dele em casa, aos poucos eles vão descobrindo a verdadeira história desse misterioso homem: era checheno e estava na Alemanha como um refugiado, tendo sofrido muito (física e moralmente) durante a viagem. Issa estava lá para poder realizar seu sonho: estudar medicina. Mas como realizar tal fato em seu estado atual tão deplorável? A resposta: tendo acesso a uma conta bancária milionária pertencente ao pai de Issa, já falecido. Mas como ter certeza que tudo isso que ele diz é verdade?
Paralelamente é contada a história de Tommy Brue, um banqueiro que vive uma vida em decadência. Seu casamento está quase acabado, ele não mantém muito contado com sua filha e seu banco – BrueFrères -, antes tão bem administrado pelo seu pai, está à beira da falência. Ele se sente receoso quando a advogada Annabel lhe procura para tratar de assuntos referentes a um de seus clientes. Quem seria esse cliente? Teria ele alguma relação com as obsoletas e corruptas contas bancárias denominadas Lipizzaners?
Não demora a descobrir-se que o tal cliente de Annabel é Issa. E também não demora a ela se ver obrigada moralmente a ajuda-lo a alcançar seu sonho. Tommy também se vê na obrigação de auxiliar Issa no que for preciso. Mas à medida que o tempo passa as coisas se complicam para ambos os lados. A polícia e os serviços de inteligência secreta da Alemanha mantêm vista grossa sobre refugiados em seu território, e tudo indica que Issa está sob suas miras. O motivo não é explícito, mas o perigo é iminente. Tudo isso implica num grande jogo de espionagem onde nunca se sabe quem é o verdadeiro inimigo da história.
A vida de todas as coisas tem uma duração natural.
Pág. 309

Em poucas linhas é difícil explicar toda a complexa história de O Homem Mais Procurado. O pior é que até mesmo o livro por completo – no decorrer de suas 348 páginas – não explica de forma clara toda essa complexidade.
Em diversos momentos da leitura é comum se sentir perdido em meio a tantos detalhes geográficos, religiosos e políticos. Há nacionalidades demais, há costumes religiosos demais, há corrupções demais: tudo “há demais”, exceto a compreensão. Porém, qualquer leitor consegue absorver o mínimo possível para que no final boa parte dos fatos faça sentido. Isso porque, mesmo com tanta complexidade, há certos detalhes da história que recebem certo “destaque” e que, por isso, se tornam mais "entendíveis" ao leitor.
Pode até ser que o leitor se mantenha confuso durante a leitura, mas nunca ele poderá negar a maestria de John le Carré para escrever. Ele consegue imaginar desfechos que ninguém espera, mas que ainda assim se mostram coesos. Também é notável sua predisposição a um turbilhão de detalhes, o que torna a leitura ao mesmo tempo confusa (como já foi dito), mas ao mesmo tempo torna o livro muito mais inteligente que boa parte dos suspenses espalhados por aí.
Outro fato que pode levar o leitor a achar a leitura tediosa é a falta de passagens extremamente emocionais e cheias de ação. Dizer que o livro é rico de passagens do tipo seria uma mentira, visto que são poucas as partes que transpassam grandes emoções ao leitor. Levando em consideração toda a seriedade geopolítica presente na escrita de Carré é fácil entender que esse artifício é usado por ele apenas para compor uma história mais palpável e realista. Afinal de contas, seria possível que o livro causasse o mesmo impacto em relação a certos fatos se ele não se mostrasse completamente acreditável?
Se você se sentiu confuso ao ler “impacto em relação a certos fatos” pode deixar de lado essa sua confusão enquanto isso é explicado. Sim, o livro contém uma infinidade de detalhes, o que o torna confuso.  E sim, o livro não se mostra tão emocional em sua maioria. Contudo, a forma como nos é apresentada a vida dos personagens nos causa certo impacto quando começamos a raciocinar sobre os fatos e sobre todos os detalhes geopolíticos-religiosos. Esse raciocínio – de extrema importância para o leitor que se aventurar em O Homem Mais Procurado – faz com que tudo faça sentido.

Mais uma vez vemos aqui uma capa derivada do pôster da adaptação cinematográfica. Ok, até que a capa caiu bem, mas é inegável que a tonalidade alaranjada presente na lombada do livro e em sua contracapa deixa-o com um ar extremamente monótono e morno. Internamente, sua edição não se mostra de toda ruim: a fonte é pequena, mas não cansativa à leitura, e há bons espaçamentos e boas margens. O problema são os capítulos, sempre longos, o que nos dá a impressão de que a leitura nunca está progredindo. São apenas 15 capítulos para 364 páginas!

Talvez o motivo para que O Homem Mais Procurado soe tão sem sal seja porque boa parte de nós, leitores, estamos sempre esperando livros do gênero thriller pré-digeridos. Na maioria das vezes, não queremos parar para pensar e refletir sobre a história e seus detalhes; queremos apenas nos emocionar com passagens de ação frenéticas e um clímax cheio de tensão. Pensando dessa forma, podemos ver que o livro mostra sua grandiosidade em sua inteligência. E por isso e por outros motivos pode-se perceber que esse livro tem sim seu devido valor.
Nosso trabalho consiste em reconhecer nossas emoções e em controlá-las. [...] Mas será que, algum dia, não lhe ocorreu que ao controlá-las você também as destrói? Quantas vezes podemos dizer “lamento” até que não lamentemos mais?
Pág. 134


Avaliação:






Sobre o Autor:
Matheus
Matheus é Colaborador do blog, cinéfilo de carteirinha, leitor compulsivo e aficionado por música. Quando não está lendo, pode-se vê-lo re-assistindo Kill Bill ou então ouvindo música com os seus fones inseparáveis.


14 comentários:

  1. acho que o autor pecou demais na razão e deixou a emoção um pouquinho de lado. me pareceu um livro muito metódico, quase frio. e isso leva a chatice, a ser arrastado... não vi o filme, mas pode ser aqueles raríssimos casos em que o filme funcione melhor do que o livro. muito provavelmente ñ o leria agora. e detesto capa de poster de filme. pelo simples fato que as editoras ñ dão opção ao leitor de escolher se querem a original ou a do filme. é muito chato. concordo que algumas vezes fica até melhor, mas mesmo assim. resenha riquíssima, tava com muita saudade de ler resenha tão bem feita =)

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  2. Uma pena o autor ter pecado assim ao escrever a história. Mais acho que assim mesmo vale a pena ler o livro. Pois gosto do gênero e aprecio muito o autor. Beijos.

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  3. Que ruim ele ter falhado em alguns pontos da hisória, mas mesmo assim ainda fiquei

    bem interessada para ler o livro, parece ser um história que prende bastante o leitor, e já ouvi falar muito bem do autor, então vale a pena dar uma chance, a resenha ficou ótima.

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  4. Thriller já não é o tipo de livro que eu curta ler, e após a leitura da resenha com vc dizendo ser um livro lento e entediante, posso afirmar que não lerei essa história... Uma pena que um autor tão conhecido no gênero tenha escrito algo que não agradou,,,
    Kisses =*

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  5. Matheus!
    Gosto demais de detalhes, nos explicam e nos situam na histórias e no comportamento das personagens de acordo com a localidade a que pertencem.
    Sou fã do Lé Carré porque foi um espião de verdade e seus livros são baseados nas suas experiências, acho que por isso tem tantos detalhes.
    Com tanta literatura fantástica por aí, poder para e analisar um livro é bem interessante.
    cheirinhos
    Rudy

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  6. Oi Matheus. Eu vi o trailer do filme, e fiquei bem curiosa, apesar de não ser o tipo de história que me empolgue em assistir. Mas o livro, provavelmente não devo ler, ainda mais você falando deste problema de o livro ser meio arrastado e confuso em algumas partes...


    Abraços

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  7. Não sei bem o nome desse estilo, mas livros que se inspiram em acontecimentos reais são uns dos meu favoritos, assim como histórias complexas. Quanto mais entrelaçados os acontecimentos, mais ansiosa fico para o final. Mesmo com as falhas apontadas na história vou dar uma chance ao thriller. :)

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  8. Ouço muito bem sobre os livros do le Carré, mas nunca tinha me interessado por lê-los. Ah, também parecem ser ótimas as adaptações cinematográficas de seus livros...
    Enfim, é justamente isso que gostei em O Homem Mais Procurado, a capacidade dele de nos fazer refletir e realmente pensar sobre tudo o que é descrito :)

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  9. Oiee.
    Que pena que o livro tem tantos problemas, acho que o autor se perdeu tentando explicar tudo demais. Também achei que tem poucos capítulos pela quantidade de páginas, isso vai me deixar louca se o ler, porque só para entre um capítulo e outro, só em pensar já sinto a cabeça doer.
    Mesmo assim eu ainda fiquei bastante curiosa, não sei se o lerei, mas fiquei muito tentada.
    Bjokas!

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  10. Paulo!! Boa noite!

    Então estive interessado em assistir o filme, para quem sabe se eu gostasse do vi pudesse comprar e ler o livro, mas já sei que não irei ver o filme e muito menos ler o livro. Se o livro é confuso não posso nem imaginar o que o filme é. Pena que o livro não te agradou, sua resenha esta ótima!!

    Xo
    Re.View

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  11. Sinceramente não gosto de temática política, história, geografia...rs.. sei a importância desses assuntos para o mundo, mas não me interesso. O filme eu passo, mas o livro poderia me surpreender.
    Um beijo

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  12. Estou ouvindo diversos elogios sobre o filme. Me parece ser muito bom. Verei em breve! :)
    E obrigado pelo elogio! ♥

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  13. Também já ouvi muito sobre o Le Carré. E sim, o livro prende a atenção, mas ainda assim é arrastado (só lendo para entender isso haha).
    E obrigado! ♥

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  14. Curto muito thriller, fiquei bastante interessada em ler esse livro, vou assistir o filme esse fim de semana.

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