postado por Matheus em 31 dezembro 2014

Resenha | Prisioneiros do Inverno

Autora: Jennifer McMahon
Editora: Record
Páginas: 350
Skoob
Compre

Sinopse
Muitos acreditam que a pequena cidade de West Hall seja mal-assombrada. Ao longo de sua história, vários casos de pessoas desaparecidas foram registrados na região mistérios nunca desvendados. Alguns moradores inclusive juram que o espírito de Sara Harrison Shea, encontrada morta em 1908, ainda vague pelas ruas à noite.
A jovem Ruthie acredita que tudo não passa de uma grande bobagem. Porém, quando sua mãe desaparece sem deixar vestígios, ela começa a desconfiar de que aquela região guarda algum mistério, e suas suspeitas são reforçadas quando ela e a irmã encontram uma cópia do diário de Sara escondido em casa. Na busca pela mãe, Ruthie encontra respostas perturbadoras, e ela pode ser a única pessoa capaz de evitar que um grande mal aconteça.



Resenha

Livros de terror/suspense podem ser divididos em dois subgrupos: aqueles que utilizam do sobrenatural para meter medo e aqueles que apostam no real, brincando com a vida como ela é. Os que entram no primeiro grupo correm um grande risco, criar histórias extremamente surreais, que não causam medo algum no leitor. Felizmente, Prisioneiros do Inverno não chega nem perto desse risco, atingindo com classe o ápice do terror fantasioso!


O livro começa chamando a atenção pela forma como é construído. Existem duas histórias distintas que são contadas, uma datada em 1908 e outra no presente; elas vão se intercalando, mostrando aos poucos aquilo que tem em comum.
Ao se começar a leitura, depara-se com o livro fictício “Visitantes do Outro Lado: O Diário Secreto de Sara Harrison Shea”, escrito pela própria Sara em 1908. A mãe de Sara morreu durante seu parto, e seu pai mal sabia como cuidar dela e de seus outros irmãos. A única figura materna que Sara teve foi Titia, uma mulher estranha, mal vista pela sociedade da época por supostamente trabalhar com feitiçarias. Titia não tinha nenhum parentesco de sangue com Sara e sua família, mas começou a viver com eles; por mais que nunca tenha dito se relacionar com o pai de Sara, todos especulavam isso. Foi com Titia que Sara começou a aprender os segredos da natureza e da morte, mas, diferente dela, Sara nunca colocou isso em prática, pelo menos até agora...
O tempo passou e Sara cresceu. Casou-se com Martin e tentou ter alguns filhos, mas todos resultaram em aborto espontâneo. Quando enfim nasceu seu primeiro filho, ele morreu aos 2 meses de vida. Um pouco depois, Sara engravidou novamente, e mais uma vez o bebê nasceu, dessa vez uma menina, chamada Gertie. O amor de Sara por sua filha era grandioso, quase possessivo, como bem via seu marido. Um dia numa forte nevasca Martin sai da casa de fazenda onde moravam de manhã para tratar dos animais. Quando notou uma raposa saindo do galinheiro, perseguiu-a até a floresta, para então mata-la. O dia foi passando, e ele ainda não havia a encontrado. Quase no final do dia, ele a encontrou, enfim a matando. Quando voltou à casa, qual não foi sua surpresa ao perceber que sua Sara estava aflita em relação a Gertie. Segundo ela, Gertie havia seguido seu pai pela floresta logo de manhã. O sangue de Martin gelou, imaginando o que teria acontecido com sua filha. Então começou uma frenética busca por Gertie, o que, depois de um bom tempo, resultou no encontro do corpo de Gertie em um poço de uma casa das redondezas. Sara não conseguia aceitar a morte de sua filha; ficou sem comer, apenas dormindo e tendo sonhos terríveis em casa. Até que se lembrou de Titia, o que lhe deu algumas esperanças. Será que seria possível trazer sua Gertie de volta? Sara sabia todas as consequências que esse ato traria?
Mais de 100 anos depois, Ruthie, sua irmã mais velha e sua mãe também moram numa fazenda na mesma cidade onde antes morava Sara. Agora, Sara não passa de uma lenda pouco contada entre a população, mas as histórias sombrias sobre os segredos das florestas ainda persistem. Ruthie nunca acreditou em tudo isso, o que pra ela nunca passou de uma simples forma de diversão na bucólica vida na cidade. Isso até Alice, sua mãe, desaparecer sem deixar rastros. Alice era a típica hippie anos 1970: morava isolada, fazia de tudo para não comprar produtos industrializados e ganhava seu dinheiro através de sua pequena fazenda. Além disso, era uma mulher conservadora, extremamente organizada em sua bagunça, alguém incapaz de sumir assim, do nada. Durante sua investigação pessoal, Ruthie começa a descobrir coisas estranhas sobre a cidade de West Hall: outras histórias de desaparecimentos, alguns casos de morte estranhíssimos e, é claro, descobre o caso de Sara. Mas será mesmo que alguma coisa entre tudo aquilo teria alguma relação com o desaparecimento de sua mãe? Ruthie teria que embarcar numa viagem pessoal aterrorizante para poder descobrir esses e outros terríveis segredos.


Pode até ser que a história em si não dê vestígios do terror que o livro possui, o que pode pegar o leitor de surpresa. O terror não é o foco, mas devido a pequenos detalhes de passagens sombrias ele aparece, com grande força!
Já na primeira parte do livro, onde nos deparamos com toda a história de Sara até a morte de Gertie, são incontáveis as passagens onde ficamos com a nuca arrepiada devido ao medo genuíno. Além do sinistro gancho sobrenatural, a morte em si tem uma grande força no livro, onde então ela consegue apavorar o leitor de forma única. Mais a frente, quando as peças das histórias desconexas vão se encaixando, o medo aumenta, fazendo com que sejam difíceis os capítulos onde não fiquemos com aquele pavor no nosso psicológico.
E a questão psicológica do livro também merece destaque. Jennifer McMahon trabalha genialmente para que tudo o que lemos seja considerado real para a nossa mente. Aos poucos, todas as questões sobrenaturais que envolvem a história se tornam palpáveis, o que causa um desconforto ainda maior no leitor. Mais impressionante que essa qualidade da escrita de McMahon é a genialidade dela no desenvolvimento do livro. Em todos os capítulos são deixadas pequenas pistas, pouco notadas; mas aos poucos elas vão tomando forma e fazendo completo sentido, fazendo com que a conexão entre o ano de 1908 e o presente resulte num desfecho genial e aterrador.
É válido ressaltar a criatividade de Jennifer na forma como construiu o livro. Mesmo dentro dos dois tempos da história (1908 e presente), há capítulos vistos do ponto de vista de diferentes personagens. O que agora já é algo comum em diversos livros ganha um frescor a mais nas mãos de McMahon, que utiliza dessa estrutura para ir espalhando suas pistas nos lugares mais inesperados da história.

Mais uma vez a Editora Record nos entrega um livro impecável em seu conteúdo. A capa, pouco  reveladora, mas ainda assim um tanto claustrofóbica, cai como uma luva para o enredo do livro (que quase sempre tem florestas nevadas como cenário principal). Os capítulos, por mais que alguns sejam grandes, não cansam em nenhum momento; a fonte, por mais que seja um tanto pequena, também não se torna um empecilho na leitura. Porém, é bem provável que em qualquer formatação Prisioneiros do Inverno pregasse a atenção do leitor da mesma forma.

Poderia passar parágrafos e mais parágrafos elogiando todos os pontos positivos do livro, mas em determinado momento é óbvio que a resenha se tornaria redundante, coisa que Prisioneiros do Inverno não é. A genialidade dele é facilmente notada, e o melhor de tudo é que juntamente com toda essa genialidade aparece também uma emoção verdadeira e extrema. Podem ter certeza que, se algum dia vocês lerem este livro, estarão diante de um clássico moderno do suspense.
-E o que há de tão bom na normalidade?
Pág. 66

Avaliação:







Sobre o Autor:
Matheus
Matheus é Colaborador do blog, cinéfilo de carteirinha, leitor compulsivo e aficionado por música. Quando não está lendo, pode-se vê-lo re-assistindo Kill Bill ou então ouvindo música com os seus fones inseparáveis.


0 comentários:

Postar um comentário