postado por Matheus em 06 fevereiro 2015

Review | Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Duração: 1h 59min
Lançamento: 2015
Gênero: Comédia
Sinopse
No passado, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente.


Crítica


O cinema hollywoodiano adora retratar a si mesmo em seus filmes. Essa mania de mostrar os bastidores da vida no cinema já rendeu grandes frutos, como por exemplo os clássicos Crepúsculo dos Deuses e A Malvada e o recente O Artista. Porém, é difícil classificar Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) como um filme sobre o cinema; ele fala a respeito de outros temas tão reflexivos quanto o cinema em si. Sendo assim, classifica-lo como uma obra sobre os bastidores cinematográficos diminuiria o amplo alcance que essa obra tem em outros temas tão dignos de reflexão.

Riggan Thomson (Michael Keaton) já esteve em seu auge em Hollywood. Na pele do super-herói Birdman ele se viu como um dos atores mais famosos de sua época; com este papel ele conseguiu altos caches e um grande reconhecimento pelo público. Mas seria ele mesmo quem conseguiu isso?
Porém, sua época de ouro passou, e agora Riggan é apenas mais um nome esquecido de
Keaton dando um show de atuação enquanto
é perseguido, literalmente, por seu passado
Hollywwod tentando voltar à fama através de uma peça na Broadway. What We Talk About When We Talk About Love, que é o nome de sua peça, é dirigida e protagonizada por ele, mas mesmo estando a poucos dias de estrear ela não está nada bem. Um dos coadjuvantes acabou sofrendo um acidente durante os ensaios, o que os leva a procurar um novo ator, tendo então que recorrer a Mike (Edward Norton), um ator sem escrúpulos e grande “amigo” de Lesley (Naomi Watts), que também integra a peça. Enquanto os ensaios e os bastidores da peça vão de mal a pior, Riggan passa por uma terrível fase: ele ainda vê o Birdman em sua sombra. Mas afinal, como se desgrudar de um personagem que o tornou famoso? Essa pergunta ainda não tem respostas para ele, porém aos poucos ele vai se acostumando com este seu “alter ego”, fazendo o possível para aumentar o vínculo com sua distante filha Sam (Emma Stone) ao mesmo tempo em que não mede esforços para fazer com que What We Talk About When We Talk About Love leve-o de volta ao estrelato.

Nas mãos de qualquer outro roteirista essa premissa poderia render num enredo completamente clichê. É só dar uma vasculhada em clássicos esquecidos que podemos encontrar filmes sobre a decadência de atores. Mas não é isso que acontece quando quem desenvolve o roteiro é Alejandro Gonzáles Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo. Em suas mãos, esta história ganha maior alcance ao não focar somente na perda da fama de Riggan Thomson. É claro que esse é um dos temas mais pertinentes do longa, mas não é o mais impactante. Tendo isso como base, os roteiristas levantam questões pouco discutidas no cinema.
Uma delas é a falta de arte no cinema contemporâneo. Em determinada cena nomes de atores famosos por seus filmes de super-heróis são citados; já em outra, alguns personagens famosos em “filmes-pipoca” aparecem de uma forma um tanto non-sense; e tem mais uma, onde uma crítica de revista, Tabitha (Lindsay Duncan), critica duramente atores como Riggan, que não conseguem sair da sombra de seu personagem medíocre, no caso Birdman. Tudo isso e mais um pouco de humor ácido são o suficiente para levantar a questão: onde está a arte no cinema atualmente? Outro ponto de reflexão de forte impacto no filme é o chamado “preço da fama”. Até onde um ator pode ir para enfim alcançar o estrelato? E se ele alcançar, do que servirá todo esse prestígio? Perguntas como essas ecoam numa velocidade atordoante na cabeça do público durante a reprodução do filme.
Voltando ao assunto humor, o humor negro que o filme faz uso tem um poder que dificilmente outras comédias do tipo têm. Não é sempre que as risadas aparecem, mas quando aparecem é de forma inteligente, sem nada de supérfluo. Em diversas cenas, o humor vem devido à insanidade do que está acontecendo, o que causa ao espectador um prazer imenso ao ver todo o desenrolar mirabolante da história.
Desde o ressurgido Michael Keaton até a surpreendente Emma Stone, o elenco está fantástico, o que faz com que o prêmio de melhor elenco que ele ganhou no SAG Awards seja extremamente merecido! A começar pelos coadjuvantes, temos um time extremamente competente de atores bem conhecidos: onde se enquadram Naomi Watts, Zach Galifianakis e Edward Norton, ambos incríveis. Mas não há nenhuma maneira de não dar toda a atenção para Stone e Keaton. Se muitos pensavam que a Emma nunca sairia
Emma Stone sendo insana e talentosa
numa das cenas mais fantásticas de Birdman
das comédias adolescentes e dos filmes do “homem aracnídeo”, em Birdman ela provou que pode sim atuar muito bem em outros filmes. Stone encarna incrivelmente a personalidade forte de sua personagem, revoltada com a vida, mas ainda assim necessitada do mínimo possível de amor paterno. Em diversas cenas ela nos mostra uma atuação bem medida e leve, mas quando é exigido um pouco mais dela, como nas cenas onde ela discute com alguém, ela se sai ainda melhor, nos arrepiando com sua fala cortante e suas expressões arrebatadoras.
Já Michael Keaton é uma atração à parte. Keaton já esteve no seu auge, lá no final da década de 1980, quando encarnou o Batman, sendo este o primeiro grande filme do super-herói no cinema. Veio uma continuação com Keaton e depois alguns outros filmes de sucesso, mas não demorou a ele cair no esquecimento do grande público. Porém, tudo mudou com Birdman! Essa sua situação parafraseia a própria condição de seu personagem: um ator “atormentado” pela grandiosa fama de um único personagem que viveu. Isso faz que o prazer ao assistir o filme seja ainda maior. Mas seu talento é ainda mais digno de atenção, sendo que ele desenvolve seu personagem com uma audácia incrível. As cenas onde Riggan atua em sua peça são arrepiantes. 

Extremamente reflexivo, habilmente escrito e magistralmente atuado, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) faz jus a todos os prêmios que está recebendo. Birdman é, acima de tudo, uma obra de extrema importância para todos aqueles que amam cinema, o verdadeiro cinema!
Avaliação:







Sobre o Autor:
Matheus
Matheus é Colaborador do blog, cinéfilo de carteirinha, leitor compulsivo e aficionado por música. Quando não está lendo, pode-se vê-lo re-assistindo Kill Bill ou então ouvindo música com os seus fones inseparáveis.


13 comentários:

  1. Matheus!
    Sabe o que acho mais bacana em suas resenhas, sejam de filmes, livros ou músicas, é que você faz uma pesquisa aprofundada e fala com convicção.
    Birdman parece realmente um filme que nos faz pensar sobre os bastidores dos sets de filmagem, tudo que acontece por fora da telonas.
    Gosto do Michael Keaton desde Os Fantasmas se divertem.
    Vou querer assistir com certeza.
    cheirinhos
    Rudy

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  2. Já estava pensando em ver esse filme. Pois tem um tema que muito me agrada. E também porque adoro o ator que está interpretando o personagem. Pelo que vi aqui já fiquei empolgada. Agora é ver se consigo ver no cinema. Gostei muito do que vi aqui sobre o filme.
    Beijos.

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  3. Assisti ontem pela internet e gostei muito.È muito louco, não é um filme convencional mas, para quem aprecia belas atuações é um prato cheio. Destaque para Norton e Keaton que estão impagáveis.

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  4. Assisti o filme e de todos os Reviews que li sobre ele, o seu até agora foi o mais completo e direto no assunto principal do filme. Birdman é um filme de uma maestria incrível, grandes atores, grandes atuações e uma grande história. Emma como sempre, faz atuações maravilhosas! Mas acho difícil este filme bater "A Teoria de Tudo" como melhor filme no Oscar.

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  5. Fico um pouco por fora quando o assunto é filmes, não assisto muitos filmes, minha lista enorme de séries atrasadas não deixa. Mas esse filme parece ser incrível, pelo que vi não é do gênero que to acostumado, ou talvez seja. Quem sabe? Só assistindo pra saber. Eu fiquei sabendo que ele está concorrendo à 9 oscars, se eu não me engano. Talvez eu assista pra ver o porquê de tantas indicações.

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  6. Eu ainda não assisti, mas parece ser MUITO LOUCO. kkkk
    Acho que vou gostar porque nunca me decepcionei com a Emma. Assim que assistir venho lhe contar.

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  7. Você fez com que eu mudasse de ideia em relação a ver o filme, pois não tinha tanto interesse nele. Vou dar uma conferida.
    Bjs, Rose

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  8. Ainda não tinha ouvido falar desse filme, na verdade sou meio desligada quando o assunto é filme. Mas vou dar uma chance a Birdman. Aproveitar pra ver algo diferente do que estou habituada a assistir. ^^ E também porque gostei da sua opinião, me deixou curiosa.

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  9. Esse filme trás muitas reflexões interessantes mesmo. Quando vi o título dele, imaginei um filme de super-herói, mas me enganei completamente. Acho um máximo quando surgem essas críticas não apenas ao Cinema, mas a tudo o que engloba esse mundo do entretenimento. Super afim de fazer uma maratona com os filmes indicados ao Oscar.


    @_Dom_Dom

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  10. Desbravadores de Livros28 de fevereiro de 2015 23:50

    Oi, Matheus.
    Confesso que tinha uma outra ideia sobre o filme e você me fez abrir os olhos. Vou até conferir e refletir mais sobre o que ele tem a nos passar.

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  11. É um filme diferente, não é chato, música excelente e o modo de cena aparentemente sem cortes ficou muito bom, a compreensão da trama pode ter algumas interpretações diferentes, o que é bom para a crítica, creio que este seja o motivo para tantas opiniões divergentes.

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  12. ai eu gostei tanto desse filme! uma cutucada na fogueira das vaidades que é Hollywood. é até meio irônico porque Michael Keaton tava bem sumido, fazendo filmes meia boca ou nem isso. acho que o filme funciona por causa da competência de Alejandro Gonzáles Iñárritu. meu filme preferido dele era Babel, mas Birdman tá quase tomando esse posto. e minha torcida para Michael Keaton ganhar o Oscar de melhor ator tá grande!

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  13. Obrigada pela dica!
    Estou querendo ir muito ao cinema mas os filmes que estão passando não me interessam muito não!
    Bjs

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