postado por Matheus em 18 janeiro 2016

Resenha | Revival



          

Um dos assuntos mais difíceis a se abordar num livro literário é a religião. É claro, é muito fácil abordá-la sobre um aspecto bonito, conveniente a todos, caso do sucesso A Cabana e de tantos outros livros do tipo. O difícil é levantar um debate realista sobre ela, mostrando os dois lados da moeda; são poucos aqueles que se sentem bem lendo algo que questiona sua própria crença. É preciso muita perspicácia - e coragem! - pra escrever sobre ela. Em Revival, Stephen King levanta um debate pertinente sobre a religião, doa a quem doer.



Jamie Morton, seus três irmãos e seus pais moram em Harlow, uma pequena cidade em Nova Inglaterra, EUA. Como toda família do interior, todos frequentam a Igreja Metodista da cidade fervorosamente. Após a saída do antigo reverendo, Charles Jacobs surge na cidade junto com a esposa e o filho para assumir seu lugar; por acaso, ele conhece Jamie, e logo se torna um grande amigo dele e de sua família.
Tudo corria bem, até que um terrível acidente choca a todos na cidade. A situação se complica ainda mais após o sermão dado por Charles após o acidente. Com a igreja lotada, ele questionou não somente a sua fé, mas a de todos os fiéis que lá estavam, usando de argumentos fortes, e por vezes cruéis, para isso. Resultado: ele perdeu o cargo de reverendo, e então teve que se mudar.
Já crescido, Jamie se tornou um músico de bandas de rock que vivia viajando pelos EUA, sempre acompanhado de alguma droga, é claro. Sua fé era inexistente desde o sermão de Charles, mas outro acaso fez com que eles se reencontrassem. Isso não reacendeu sua fé em Deus, mas questionou-o sobre sua crença na eletricidade, velha conhecida de Charles, que era um grande entusiasta de sua força, usando-a para ganhar a vida de todas as formas possíveis. Aos poucos, Jamie vai percebendo que o entusiasmo de Charles com a eletricidade é quase uma obsessão, o que o leva a desconfiar do que Charles realmente quer com aquilo.

A introdução de Revival é daquelas em que nada acontece, mas que é contada de uma forma que faz com que seja impossível não lê-la com entusiasmo. Os personagens são cativantes, os detalhes são muito bem amarrados e o ritmo da escrita é muito bom, nunca entregando mais do que o leitor pode absorver. Tudo indica que estamos diante de mais um grande livro de Stephen King. O que está certo, mas não completamente.

Detalhe da capa e seu ótimo
efeito refletor
O grande problema de Revival é a forma como King desenvolve sua história. Mais uma vez colocando um personagem como narrador (Jamie Morton), toda a história é contada em flashback. Até aí nenhum problema. Porém, King escreve sobre tantos detalhes - muitos deles desnecessários à história central - que em certo ponto o livro fica extremamente arrastado. Isso acontece nas passagens onde Jamie narra sua vida na primeira banda de rock, por exemplo; passagens bem escritas, mas que pouco têm a acrescentar ao livro como um todo.
Contudo, em certo momento a história dá indícios de que tudo vai deslanchar, e é justamente isso que acontece. Depois desse momento, o livro continua com todo seu detalhismo, mas ficamos tão ansiosos pelo que virá ao final que nem nos damos conta disso. E, quando enfim chegamos ao clímax, ficamos com a sensação de que tudo valeu a pena.
O clímax final entra pro hall de finais mais aterrorizantes já escritos por Stephen King. É difícil dizer ao que se deve isso. Talvez seja a (quase) inexistência do sobrenatural; o que pode ser considerado sobrenatural é explicado de forma com que acreditamos que aquilo realmente é real. Talvez seja o fato de o final brincar com algo com que todo mundo imagina. Ou talvez seja porque o final é realmente assustador, sem precisar de mais explicações pra isso. É Stephen King fazendo o que melhor sabe fazer.

No livro físico, o que mais chama atenção é sua capa. Não por sua ilustração - com o irritante fato de o nome de King estar em fonte maior que o próprio título do livro - mas sim pelo efeito de metalizado/reflexo muito bem feito. Na parte de trás, ao invés do típico resumo, estão alguns trechos de resenhas do livro; entre eles, há um trecho de uma entrevista de King em que ele diz “Eu queria criar uma história o mais humana possível, porque a melhor maneira de assustar o leitor é fazê-lo gostar dos personagens.”. Provavelmente ele esteja certíssimo, já que os personagens de Revival criam um bom vínculo com o leitor.
No fim das contas, todo o detalhismo não foi completamente desnecessário. 
Os filhos aprendem muito mais com exemplos mudos do que com regras faladas [...].
Pág. 266


Avaliação:






Sobre o Autor:
Matheus
Matheus é Colaborador do blog, cinéfilo de carteirinha, leitor compulsivo e aficionado por música. Quando não está lendo, pode-se vê-lo re-assistindo Kill Bill ou então ouvindo música com os seus fones inseparáveis.


15 comentários:

  1. Oi, Matheus! São poucas as resenhas que eu li deste livro, mas posso concluir que o que me chamou mais a atenção foi a capa mesmo. Confesso que esperava uma história diferente para Revival. O que não gostei neste livro foi o seu começo, uma pessoa chega na cidade, Charles Jacobs, e tudo começa a mudar, não gostei. O fator de pecaminoso como drogas, sexo e rock também não me interessei, fator tratado em muitos outros livros. Em contrapartida, os pontos positivos vão para a mudança no ato religioso desta família e o autor possuir um bom desenvolvimento de histórias. Duvidoso!

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  2. Esta capa perdeu bem de seu impacto com o tamanho exagerado das letras, uma pena. Quero ler este livro, pois este final me deixou curiosa!
    Bjs, rose.

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  3. cristiane dornelas18 de janeiro de 2016 18:26

    Acabei ganhando um livro dele e li pra ver se era tudo aquilo que vi falarem dele. É legal, mas notei na resenha uma certa mesmice. Talvez seja bobeira minha, sei lá, mas a coisa do "nada acontece e mesmo assim você quer saber o que vem em seguida" é muito parecido com o que senti com o outro. É estranho, ele tem essa narrativa que mesmo meio parado você não quer deixar de ler porque sabe que vem coisa boa pela frente. E vem. É bem escrito, é legal de ler e vale a pena no final. Senti que esse seria outro dele que eu gostaria. O cara sabe mesmo o que faz e faz bem.

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  4. Alessandra Fernandes18 de janeiro de 2016 21:29

    Desde que tive minha primeira experiência com Stephen King em O Cemitério virei fã de sua escrita. A forma como ele cria e descreve os personagens e a história é perfeita!
    Apesar de Revival ter uma narrativa um pouco maçante, ainda tenho a curiosidade de lê-lo. Sei que King irá mais uma vez me surpreender, principalmente com seus finais cruéis.

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  5. Revival me intrigou de uma forma completa. São bem poucos,
    se é que existe, algum livro de um autor consagrado que debata e discuta sobre
    o positivo e o negativo da religião em um único livro. Stephen King conseguiu
    me prender a atenção desde os mistérios à atos familiares e discussão da
    religião.

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  6. Eu não li nada do Stephen King, mas não tenho um interesse
    enorme por ser terror. Revival me chamou a atenção por conta deste divisores de
    opiniões e ações entre o bem e o mal, concentrados em uma decisão. O fator
    religioso e familiar também é atrativo para a leitura em Revival.

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  7. Estou coletando o máximo de informações sobre os livros de King, e esse ano pretendo inseri-lo nas minhas leituras. Revival parece ser uma boa opção, fiquei bastante intrigada em saber mais sobre Jamie e suas indagações. O livro tem uns temas bem pesados, que deve nos levar a refletir muito. Gostei da dica!

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  8. Oi!
    Vejo as pessoas falarem muito bem da escrita do Stephen King que fiquei muito curiosa sobre os livros dele mas ainda não tive oportunidade de ler nada e pela a capa imaginava uma historia diferente !!

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  9. marlene conceiçao28 de janeiro de 2016 15:04

    Resenha maravilhosa.
    Não é a primeira obra que ouço falar do Stephen King, mas essa com certeza é a melhor resenha que ja li, sobre alguns dos seus livro, amo o gênero, fiquei com o pé atrás por abordar um tema muito sensível para mim que é a religião e a perda de fé.
    Mas tenho certeza que vou amar, estava em duvida de qual livro do Stephen comprar primeiro, agora com certeza não estou mais.

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  10. Daniel Olhos Água28 de janeiro de 2016 16:49

    O que mais me atraiu nesse livro foi sua capa linda, por mim, leria sem mesmo ler a sinopse, já que não podemos esperar coisa ruim do Stephen King, né? Enfim, é um autor muito versátil e com certeza conquista o leitor com histórias de diversos gêneros. Abraços

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  11. O único livro que li do autor até agora foi Joyland e gostei muito, creio que é bem dificil escrever sobre religião ainda mais quando muitas pessoas são intolerantes quando se tratam de mexer com suas crenças, não é um tema que eu goste de ler mas sinto que vale a pena.

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  12. Se prepare porque o final de Revival chega perto do perturbador!

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  13. Gostei bastante da discussão feita por ele referente a religião!

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  14. Nunca leu nada de Stephen King? Já vai começando com Misery, uma obra-prima do terror <3

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  15. Se você é religiosa, o livro pode se tornar ainda mais interessante porque você consegue criar um certo debate com ele mesmo.

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