postado por Matheus em 20 janeiro 2017

Resenha dupla | Carol


                         


Antes de começar essa resenha, acho que é importante discernir alguns pontos em relação à época em que a história se passa. Estamos de volta aos anos 1950, década na qual se passa a história e na qual o livro foi publicado. O preconceito era gritante. Não havia liberdade para expor sua orientação sexual, há menos que você quisesse viver à beira da sociedade. Quando você para para entender esse contexto toda a história de Carol ganha uma força maior, tanto em suas poéticas páginas como em suas belíssimas cenas.
- O que poderia ser mais chato que a história do passado? – disse Therese sorrindo.- Talvez futuros que não terão história nenhuma. [Carol respondeu]. Pág. 50

Therese Belivet é uma jovem de 19 anos insegura e introspectiva. Trabalha como vendedora numa loja de departamentos e acredita que dificilmente seja reconhecida em sua profissão de verdade – no livro cenógrafa e no filme fotógrafa. Órfã desde cedo, agora ela mora sozinha, mas sempre conta com a presença de seu namorado Richard.
Carol Aird é uma mulher de quarenta e poucos anos. Casada e com uma filha, para a sociedade aparenta ter uma vida completamente normal, mas ela sabe que seu casamento está desmoronando.
Ambas se veem na loja em que Therese trabalha. Trocam olhares. Conversam. Mas só. Porém, esse foi o começo de um amor conflituoso, confuso e difícil, cercado de preconceitos e inseguranças para as duas mulheres.
[...] o ajuste entre dois homens ou duas mulheres pode ser absoluto e perfeito, de um modo que jamais pode ser entre a mulher e o homem, e que talvez certas pessoas desejam exatamente isto [...]. Pág. 266

Patricia Highsmith merece muitos méritos por ter escrito Carol.
Primeiramente, é importante dizer que este foi o primeiro livro conhecido da época a mostrar um amor homossexual sem conter um final trágico. No fim dessa edição há um pós-escrito onde Patricia narra a repercussão do lançamento do livro, contando sobre as cartas que recebeu de fãs dizendo que o livro ajudou-os muito mostrando que não há apenas finais trágicos para os homossexuais.
E além disso, a escrita de Highsmith é algo primoroso. Logo que você se aventura nas primeiras páginas já percebe o quão poético é o livro; o narrador em terceira pessoa te dá uma visão ampla e sensível de tudo o que acontece, nos transportando para os anos 50 de uma forma incrível. Além disso, a forma como Highsmith descreve os sentimentos das personagens é algo único. A medida que a história vai transcorrendo vamos identificando cada vez mais aspectos psicológicos da vida das personagens; seus medos, suas inibições, seus afetos, seus amores... Tudo isso descrito com uma minuciosidade de detalhes incrível.
Enquanto no livro Patricia é a responsável por toda essa magnificência de sentimentos, no filme é difícil dizer certamente quem foi o responsável por isso. Todd Haynes, o diretor, obviamente tem muito do crédito por conduzir um filme com uma história lenta e repleta de detalhes de forma tão fluída, fazendo com que nos apeguemos as personagens de uma forma estupenda. Mas dificilmente o filme teria a mesma grandiosidade sem as forças naturais de Cate Blanchett e Rooney Mara.
A primeira interpreta Carol de forma estonteante. Sua sensibilidade clássica e de certa forma frágil é demonstrada em sua atuação de uma forma incrível, construindo assim uma atuação que se sustenta em todos os pequenos detalhes da personalidade de sua personagem. Já Rooney Mara entra na pele de Therese com uma força incomum; seus temores e inseguranças são mostrados sensivelmente através de sua atuação, nos entregando uma atuação limpa, sem precisar de cenas melodramáticas para nos emocionar.
O amor era tido como uma espécie de insanidade feliz. Pág. 31

A diagramação do livro é simples e clássica, com uma fonte agradável que não atrapalha a leitura em momento algum. Essa edição da capa do livro com o pôster do filme ficou muito boa, ainda mais para os fãs do filme. A ótima fotografia do longa, em conjunto com um figurino de época impecável, criou um filme extremamente belo aos olhos, onde inúmeras outras cenas do filme dariam capas tão lindas quanto essa.
Ou viver ao contrário do que se é, isso sim é degradante por definição.Pág. 267

Quando enfim acabamos de ler o livro a sensação de esperança e melancolia que nos resta é grande. Não há dúvidas de que acabamos de ler – ou assistir – uma história de romance única, onde cada troca de olhares, cada toque, é usado para simbolizar o mais puro e profundo amor das personagens. Nunca antes um romance deu tanto destaque aos pequenos detalhes que formam o que conhecemos popularmente como “amor”.
E não precisava perguntar se aquilo estava certo, não era da conta de ninguém, porque aquilo não poderia ser mais certo e perfeito. Ela apertou Carol com mais força de encontro a seu corpo, e sentiu a boca de Carol contra sua própria boca a sorrir.
Pág. 197
Direção: Todd Haynes
Duração: 1h 58min
Lançamento: 2015
Gênero: Drama, Romance
Avaliação (filme):




Sobre o Autor:
Matheus
Matheus é Colaborador do blog, cinéfilo de carteirinha, leitor compulsivo e aficionado por música. Quando não está lendo, pode-se vê-lo re-assistindo Kill Bill ou então ouvindo música com os seus fones inseparáveis.


1 comentários:

  1. Matheus!
    Não li o livro ainda, entretanto, assisti o filme.
    Não posso dizer se ele é fiel ao livro, mas posso dizer que realmente é uma história envolvente, mostra o quanto a conquista é feita aos poucos, independente da orientação sexual.
    Lindo mesmo!
    “Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas.” (Confúcio)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de JANEIRO dos nacionais, livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

    ResponderExcluir